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Futebol 07/10/2014

Rente ao alambrado, mãe de zagueira do Centro Olímpico apoia, torce, vibra

Por Andrei Spinassé, editor do Esportividade
Maria Rodrigues, mãe de Kelly, no Canindé (Andrei Spinassé/Esportividade)

Maria Rodrigues, mãe de Kelly, no Canindé (Andrei Spinassé/Esportividade)

Com pouca gente nas arquibancadas e sem torcida cantando em uníssono, os gritos de uma senhora sobressaíam no Canindé durante Portuguesa x Centro Olímpico, jogo da última rodada da primeira fase do Campeonato Brasileiro feminino, realizado na ensolarada e fria tarde de 4 de outubro de 2014, sábado. Para entender por quem Maria torcia, era necessário prestar bastante atenção no que ela dizia. Daí se percebia que era pelo Centro Olímpico. Mas, afinal, quem é ela? A resposta surgia quando o espectador ficava ainda mais atento aos gritos dela: ela usava muito a palavra “filha”.

Maria Rodrigues é mais do que mãe de Kelly: é uma fanática torcedora da zagueira de 27 anos. Durante todo o primeiro tempo ficou rente ao alambrado dando conselhos e incentivos a todo o time da Associação Desportiva Centro Olímpico e, especialmente, para sua filha. E deu certo. A defesa do Centro Olímpico não foi muito incomodada pelo ataque da Lusa. O problema é que a equipe da zona sul perdeu diversas chances claras de gol. O placar de 0 a 0, porém, fez o Centro Olímpico se classificar à próxima fase.

Dona Maria trabalha como agente de segurança e exerce um papel além do de incentivadora moral de Kelly. “Se ela precisar do dinheiro, eu arrumo, dou um jeito, me viro. Se depender de mim, enquanto ela estiver feliz no futebol, ela vai ficar”, disse. A zagueira, segundo a mãe, recebe uma ajuda de custo do Centro Olímpico, uma equipe ligada à Prefeitura de São Paulo, e verba do Bolsa-Atleta (R$ 925 mensais, categoria nacional). Divide um apartamento, que é pago pelo time, com outras jogadoras.

Kelly Rodrigues (Centro Olímpico)

Kelly Rodrigues (Centro Olímpico)

“Futebol é a vida dela”, resume Maria. “Quando você conversa com ela sobre futebol, vê brilhando uma luz nos olhos dela.” E sempre foi assim. A mãe conta que, na escola, Kelly até mesmo era escolhida por meninos para jogar com eles. Mas foi um teste no Juventus que a fez começar a ter perspectivas de um dia se tornar profissional. Aos 12 anos, sem Maria saber, Kelly, irmã do meio, foi com as outras duas à Mooca. Nesse dia até se confundiram em que lugar seria a “peneira” – na sede social ou no estádio da Javari – e foram a pé de um endereço a outro. As três começaram a treinar lá e nem sequer tinham tempo de almoçar em casa, pois também estudavam. Maria, que mora quase na divisa com São Caetano do Sul, levava “pão com mortadela para elas comerem”. No ônibus, elas passavam por baixo da catraca.

Das três, apenas Kelly ainda joga futebol. Depois de sete anos no Juventus, ficou em mês em Araraquara e foi para o forte time feminino do Santos, em que conquistou dois títulos da Copa do Brasil feminina (2008 e 2009) e direito de receber o Bolsa-Atleta. Na época em que era jogadora santista, obteve uma bolsa de estudos e estudou administração de empresas. “Os quatro anos foram doídos, muito sofridos”, afirmou Maria sobre a rotina de Kelly nesse período. Quando o Santos encerrou seu setor de futebol feminino, em 2012, a zagueira se transferiu para o Centro Olímpico e, após se recuperar de uma lesão no tornozelo, fez parte do elenco campeão brasileiro em 2013.

A mãe obviamente gostaria que a filha fosse convocada para a seleção brasileira. “Vamos ver o que Deus reserva para ela. Ela foi convidada para sair do Brasil, mas não quis, disse não ser a hora dela, não era o tempo certo. Agora, se tiver uma proposta boa, ela vai.”

Maria disse que Kelly não gosta de autopromoção: “Ela é uma menina muito humilde, caladinha. Se ela vê que vai acontecer algo que prejudicaria outra menina, ela fica na dela. Ela é capaz de ceder o lugar dela… Eu digo: ‘Filha, você tem de ser mais destemida, ir mais para cima, aparecer mais’. Ela diz que o que é do homem o bicho não come, que o que Deus tem guardado para ela está guardado para ela, que não vai passar por cima de ninguém, que vai seguir a vontade de Deus”.

Nesta quarta-feira (8), o Centro Olímpico estreia na segunda fase do Brasileiro feminino de 2014 enfrentando a Ferroviária no Pacaembu.

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