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Sonho possível: nova geração da ginástica inspira os mais jovens ainda

Por Andrei Spinassé, editor do Esportividade
Flávia Saraiva com suas duas medalhas (Ricardo Bufolin/CBG)

Flávia Saraiva com suas duas medalhas (Ricardo Bufolin/CBG)

Sem dúvida, a etapa brasileira da Copa do Mundo de ginástica artística teve um grande significado para os competidores, especialmente para as “meninas de ouro” Flávia Saraiva e Rebeca Andrade, que pela primeira vez competiram contra estrangeiras adultas em solo brasileiro. Não está tão explícito assim, porém, o papel do evento para os ainda mais jovens, aqueles que disputam campeonatos brasileiros e estaduais de categorias de base ou aqueles que nem sequer começaram a praticar a modalidade. O efeito da competição sobre eles é um dos elementos que farão a “roda” da renovação “girar”. É possível dizer que já existem precedentes: quem era da arquibancada em 2006 passou a medalhista em 2015, um ano antes dos Jogos Olímpicos de 2016, os do Rio de Janeiro.

Francisco Barretto Júnior nas paralelas (Ricardo Bufolin/CBG)

Francisco Barretto Júnior nas paralelas (Ricardo Bufolin/CBG)

Francisco Barreto Júnior, paulista de Ribeirão Preto, era um rapaz de 17 anos quando, em dezembro de 2006, ocorreu a finalíssima da Copa do Mundo no ginásio do Ibirapuera. Era apenas mais um adolescente fã de ginástica. “Corri pela parte inferior da arquibancada para pedir autógrafo para os chineses, o alemão”, recordou-se o ginasta, medalhista de bronze nas paralelas em 2015. “Agora a galera quer tirar fotos comigo. É uma recompensa. Eu estava no lugar dessas pessoas. Hoje existe uma molecada que pode estar aqui daqui a alguns anos”, afirmou Barreto, que conseguiu estudar educação física e formar-se em 2012, em São Caetano do Sul, mesmo já sendo ginasta.

Rebeca Andrade (Ricardo Bufolin/CBG)

Rebeca Andrade (Ricardo Bufolin/CBG)

Os amigos Diego Barros e Gustavo Henrique são ainda mais novos que Chico era quando Diego Hypolito venceu em 2006, em São Paulo, a prova do solo da finalíssima. Eles falam, no entanto, sobre ginástica com uma grande desenvoltura – aquele é, afinal, o mundo deles. Já são colegas de Esporte Clube Pinheiros de Barreto e começaram a treinar no mesmo ginásio onde Rebeca Andrade fez os seus primeiros movimentos de ginástica artística, o Bonifácio Cardoso, em Guarulhos. Ambos acompanharam de perto, com muita atenção, a etapa brasileira no Ibirapuera.

Morador da Vila Guilherme, na zona norte da capital paulista, Diego, 14 anos, só poderá competir como adulto em 2019, mas já pode vislumbrar esse futuro ao observar os colegas de modalidade competindo – e obtendo sucesso – em casa. O sonho é possível. “Conseguimos mais esperança para poder chegar lá. Antigamente eu não pensava muito nessas coisas. Mas agora, como estou evoluindo bastante, acho que tenho chance, ainda mais agora, de chegar a um campeonato internacional”, afirmou.

Francisco Barretto Júnior vibra após sua apresentação (Ricardo Bufolin/CBG)

Francisco Barretto Júnior vibra após sua apresentação (Ricardo Bufolin/CBG)

A rotina de treinos é, mesmo para os mais novos, intensa. Diego e Gustavo transferiram-se para o Pinheiros há um ano, quando o treinador deles passou a trabalhar lá. Saem da escola e vão, de metrô e trens da CPTM, ao clube da zona oeste paulistana. De segunda-feira a sexta-feira, treinam das 16h às 20h; aos sábados, no período da manhã e têm contato com os atletas mais velhos. “Eles nos dão várias dicas sobre o que temos de melhorar”, contou Diego, cujos melhores aparelhos são barras paralelas, cavalo com alças e solo. Nascido em 2002, Gustavo, mais tímido que o amigo, gosta mais das argolas, aparelho em que Arthur Zanetti, atleta de São Caetano do Sul, foi campeão olímpico em 2012, mundial em 2013 e desta etapa da Copa do Mundo.

No entanto, segundo Barreto, na ginástica os treinamentos não são tudo. “Todo detalhe faz a diferença. Às vezes só treinar e ficar dez horas por dia dentro do ginásio não adianta. Você precisa ter um controle emocional absurdo”, declarou.

Ângelo Assumpção (Ricardo Bufolin/CBG)

Ângelo Assumpção (Ricardo Bufolin/CBG)

O também pinheirense Ângelo Assumpção, cujo bairro de origem é Burgo Paulista, que fica na região da estação de metrô Patriarca, na zona leste, tentou fazer o que lhe foi ensinado. “Nossa psicóloga faz conosco um trabalho de blindagem, de esquecermos o que está ao redor para tentarmos nos focar no aparelho, e eu consegui fazer um pouquinho disso”, disse o vencedor da prova do salto no Ibirapuera. Ângelo, de quase 19 anos, revelou estar sem patrocínio. “Espero que esse resultado me abra muitas portas.”

Os ginastas, no entanto, voltam ao “mundo real” quando executam com sucesso sua série. “Na hora em que cumprimos nosso dever, a satisfação de ouvir os gritos da torcida é absurda, animal. Fazemos tudo para sentir essa sensação”, afirmou Barretto.

A atleta que mais chamou atenção de público e imprensa em São Paulo, a carioca Flávia Saraiva, é fã da torcida. Em sua primeira competição adulta – fará 16 anos em setembro –, obteve uma medalha de ouro no solo e uma de prata na trave. “Treinei bastante para conseguir essas notas. A torcida me ajudou bastante no solo, na trave e, mesmo com minha queda, nas paralelas assimétricas – eles me ajudaram a subir novamente nas barras e adorei isso”, disse a promissora ginasta de 1,33 metro.

Ângelo contou que em 2006 pediu um autógrafo e uma foto a Diego Hypolito, mas só ganhou o autógrafo. De qualquer forma, aquele evento serviu como motivação a ele, que em 2015 dividiu pódio (bem lá no alto) com o experiente ginasta, terceiro colocado no salto. Histórias como essa podem se repetir nos próximos anos com crianças e adolescentes que foram ao Ibirapuera no fim de semana passado e os ginastas da atual nova geração.

Bom público

Flávia Saraiva na trave (Ricardo Bufolin/CBG)

Flávia Saraiva na trave (Ricardo Bufolin/CBG)

A torcida foi elogiada por Georgette Vidor, chefe da delegação brasileira feminina:O que achei incrível foi o comportamento da arquibancada. As pessoas entendem ginástica, aplaudem quando existe algo legal. Havia aqui um público conhecedor”.

A Federação Internacional de Ginástica, de acordo com ela, ficou “encantada” com o fato de o público ter enchido as arquibancadas do ginásio do Ibirapuera no domingo, dia para o qual os ingressos esgotaram-se. “As etapas da Copa do Mundo, por causa de transmissão pela televisão, não costumam encher ginásios”, contou ela. “Para a FIG, terá de haver sempre Copa no Brasil de qualquer maneira.” Georgette também disse que se trata de um evento de realização cara para a Confederação Brasileira de Ginástica.

O que pode evoluir

Bandeiras desiguais (Rita Moraes)

Bandeiras desiguais (Rita Moraes)

Os espectadores sugeriram, para as próximas edições do evento, escolha prévia de ingressos, no ato da compra, de acordo com a localização de cada aparelho. Para isso, os bilhetes precisariam ter numeração bem clara, e esta necessitaria ser respeitada.

As bandeiras erguidas no momento dos pódios deram a impressão de terem sido improvisadas. Existiam diferentes tamanhos – e, no caso da brasileira, até diferentes tons de verde. A argentina, levantada por causa do terceiro lugar de um ginasta do país nas argolas, em que houve uma dobradinha brasileira, era maior que as do Brasil.

O Brasil fechou a etapa caseira da Copa do Mundo de ginástica artística com nove medalhas conquistadas: três de ouro, quatro de prata e duas de bronze.

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