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Handebol 15/09/2015

Sucesso do handebol brasileiro é um ‘mistério’; existe amor por ele em SP

Por Andrei Spinassé, editor do Esportividade
Alexandra Nascimento (Wander Roberto/Photo&Grafia)

Alexandra Nascimento (Wander Roberto/Photo&Grafia)

Você se lembra de ter visto recentemente um grupo de pessoas jogando handebol em um espaço público, como um parque? Mas gente praticando futebol, futsal, vôlei e até tênis, por exemplo, é algo normal de se encontrar em São Paulo. O mais incrível disso é que o Brasil é o atual campeão mundial feminino da modalidade e, mesmo assim, amantes dela enfrentam dificuldade – mesmo em uma cidade como a capital paulista, um dos centros do esporte brasileiro.

Uma pesquisa divulgada pelo Ministério do Esporte neste ano mostrou que, em 2013, handebol foi apontada como primeira modalidade praticada na vida por 2% dos entrevistados, ficando até à frente do basquete, que teve 1,8%; 4,3% dos entrevistados com idade entre 15 a 19 anos praticavam handebol dois anos atrás, mas apenas 0,6% dos que tinham entre 25 e 34 deram essa resposta. O vôlei pode ser usado para que se faça uma comparação: caiu de 19% para 7,5% de uma faixa etária para outra, mas esse declínio não é tão acentuado quanto o do handebol.

Há clara falta de continuidade da prática de handebol quando o jovem sai do ambiente de estudos. As escolas não dão atenção devida à modalidade, e até pouco tempo atrás até mesmo as meninas da seleção brasileira juvenil mal tinham conhecimento sobre quem defendia o Brasil nas competições adultas.

Morten Soubak, treinador da Seleção Feminina (Wander Roberto/Photo&Grafia)

Morten Soubak, treinador da seleção feminina (Wander Roberto/Photo&Grafia)

O treinador da equipe nacional feminina, o dinamarquês Morten Soubak, sentiu isso na pele em 2009. “No primeiro encontro que tive com a seleção feminina juvenil, mostrei vídeos da Olimpíada de Pequim – nove meses depois dos Jogos Olímpicos de 2008. Perguntei às meninas quem jogava em que posição, e elas não sabiam. Elas não sabiam quem jogava na seleção adulta feminina. Perguntei quem era o atacante do Corinthians, e isso todo mundo sabia. As mesmas meninas haviam me contado que queriam disputar uma Olimpíada. E elas não sabiam quem era da equipe nacional!”, contou.

“Não me pergunte como o Brasil se tornou campeão do mundo, porque não sei lhe explicar”, disse o treinador, segundo o qual em seu país as pessoas conhecem handebol nos primeiros anos de vida. “Somadas, populações de Dinamarca, Suécia e Noruega não dão a [da região metropolitana] de São Paulo. E aqui é difícil achar um ginásio que tem piso e estrutura legais.”

A maioria esmagadora da seleção feminina campeã mundial em 2013 joga em clubes europeus. Algumas das atletas, como Alexandra Nascimento, Daniela Piedade, Fabiana Diniz (Dara), estão no exterior há mais de uma década. O resultado disso é que os campeonatos regionais e nacionais nem de perto têm o mesmo nível do próprio time brasileiro.

A ponta direita Alexandra foi eleita a melhor jogadora do mundo de 2012. Armadora esquerda Eduarda Amorim foi considerada a melhor de 2014.

Na dificuldade ainda existe o amor

Fabiana Diniz, a Dara, capitã da seleção (Wander Roberto/Photo&Grafia)

Fabiana Diniz, a Dara, capitã da seleção (Wander Roberto/Photo&Grafia)

“Faltam condições, mas o coração do brasileiro é muito grande”, afirmou Morten. É preciso muito amor pelo handebol para se dedicar a ele. Carlos Casalino conheceu um grupo de meninas que realmente gosta da modalidade – é pai de uma delas – e resolveu ser treinador da equipe, chamada de Ellas.

“A força de vontade das meninas é o meu crescimento pessoal. O amor que elas têm pelo esporte é muito grande e é o que faz eu batalhar para estar aqui [curso de handebol promovido pela Unisport]”, disse o educador físico, que, com exceção disso, já não exerce mais a profissão.

Garotas de idades distintas, de 12 a 20 anos, jogam juntas no Centro Esportivo Lapa. “Elas não tinham onde treinar o handebol. Começaram a praticá-lo sozinhas. Eu assumi o time no começo deste ano. Tentei conseguir uma das quadras das escolas da região e sempre foi negado o espaço para nós, sempre com alguma descupinha ou outra. Não desisti, o grupo continuou junto e treinamos há cinco meses no Pelezão. Foi o diretor de lá, Ricardo, que nos disponibilizou a quadra – com apoio do secretário Celso Jatene.”

Carlos nota que as escolas da região ensinam mais queimada que handebol. “Quando você nasce sabendo é uma coisa; quando você ensina aos 12 anos a dificuldade é maior. E, sem espaço e sem ter isso na escola, a nossa é enorme”, declarou.

Jéssica Quintino, ponta direita (Bruno Miani/Photo&Grafia)

Jéssica Quintino, ponta direita (Bruno Miani/Photo&Grafia)

O educador físico decidiu, então, investir em conhecimento. Optou por fazer o curso de handebol de Morten Soubak, que durou três dias e custou R$ 980. O objetivo dele é levar o conhecimento passado pelo treinador dinamarquês às meninas do Ellas, que treinam três vezes por semana: das 15h às 17h de sexta-feira, das 8h30 às 11h de sábado e das 8h30 às 11h de domingo.

Apesar dos esforços, o Ellas nunca disputou uma partida contra outro time. No curso Carlos fez contatos a fim de que possa marcar jogos amistosos para as garotas, que esperam ansiosamente por esse dia.

Ainda há quatro ou cinco vagas no time. As interessadas devem entrar em contato com Carlos pelo e-mail [email protected]. Mas ele ressalta que o mais importante é a amizade entre as integrantes da equipe. A paixão pelo handebol é o que as une.

Educação física nas escolas

Um projeto de lei do senador Eduardo Amorim objetiva que haja um mínimo de duas horas semanais do ensino de educação física. “Desde 1996, quando da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases para a Educação, não há mais determinação de carga horária das disciplinas. A escola é que constrói seu projeto pedagógico e define a carga horária de cada uma. Isso representou um preocupante enfraquecimento da disciplina em foco, que sempre enfrentou resistência no meio acadêmico.”

“Hoje é o professor de educação física que deve justificar a permanência da sua disciplina no currículo e apresentar sua finalidade, argumentando e convencendo a comunidade da quantidade de sessões a ser oferecida na escola, num injusta disputa com as demais disciplinas curriculares. O problema pode e deve ser revertido pela legalidade”, diz a justificativa.

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