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Corrida de rua 29/02/2016

Na SP Run, corrida de shopping, atleta sente-se em uma pista de kart indoor

Por Andrei Spinassé, editor do Esportividade
Largada da sétima edição da SP Run (Divulgação)

Largada dos 4 km da sétima edição da SP Run (Divulgação)

Duas décadas atrás houve um boom de pistas indoor de kart em São Paulo. Não era difícil montar um negócio de velocidade na cidade: com a compra de alguns karts e o aluguel de um galpão ou de parte do estacionamento de um shopping center, o empresário conseguia possuir o seu. Gerir o negócio era o grande “xis da questão”, e, assim, diversas pistas encerraram suas atividades. Poucas restaram na capital paulista, e começou outro boom, este com jeito de que ele “veio para ficar”: o das corridas de rua. Em uma prova, o mundo do kartismo indoor e o da corrida pedestre se encontram simbolicamente: na SP Run, cuja sétima edição aconteceu no domingo passado, dia 28 de fevereiro.

Largada dos 8 km (Divulgação)

Largada dos 8 km (Divulgação)

Não é exagero dizer que a SP Run está para as provas de rua convencionais assim como o kartismo indoor está para o de kartódromos como o da Granja Viana. A SP Run é disputada totalmente nas dependências do shopping SP Market, na zona sul paulistana, e, obviamente, a passagem pelas alamedas do centro comercial e pelo Parque da Mônica é o momento que mais se destaca.

Atletas no estacionamento externo do SP Market (Divulgação)

Atletas no estacionamento externo do SP Market (Divulgação)

A maior parte da corrida, no entanto, é feita nos estacionamentos do SP Market. A largada é autorizada no externo, e o primeiro km é completado logo após a rampa que dá acesso ao segundo andar do edifício-garagem. É nele justamente onde os mundos de corrida pedestre e kartismo indoor mais se aproximam. Se houvesse barreiras de pneus nas laterais, poderia ser uma pista de corrida… De kart. Ao fim do circuito do segundo andar, os atletas ainda sobem ao terceiro, em que novamente “pilotam” seu corpo antes de descerem e finalmente ingressarem nas alamedas do centro comercial.

Atletas nas alamedas do SP Market (Divulgação)

Atletas nas alamedas do SP Market (Divulgação)

Incrivelmente existe como utilizar algumas técnicas das pistas automobilísticas na SP Run. Por se tratar de um traçado bem sinuoso, o corredor pode ganhar tempo e encurtar a distância ao contornar as curvas por dentro. Na segunda volta – completada apenas pelos participantes dos 8 km –, o traçado ideal já fica mais claro aos corredores.

Corredores passam pelo Parque da Mônica na 7ª SP Run (Divulgação)

Corredores passam pelo Parque da Mônica na 7ª SP Run (Divulgação)

A maior diferença entre as corridas de kart e pedestre é que, diferentemente das provas a motor, nas de atletismo amadoras praticamente ninguém incomoda-se por não ter vencido. Para a grande maioria das pessoas, superação pessoal e saúde são mais importantes que uma vitória. Na verdade, todos vencem aqui.

Felicidade irradiante

Maria José, a Zezé, corre ao lado da guia Mônica (midiasport)

Maria José, a Zezé, corre ao lado da guia no SP Market (midiasport)

Quem observava Maria José Ferreira Alves ao fim da SP Run nunca poderia imaginar ser ela dona de quatro medalhas de bronze paraolímpicas – 100 e 200 metros rasos em Atlanta-1996 e Atenas-2004 na categoria de atletas com deficiência visual parcial. Era notória a felicidade de Zezé após a participação nos 4 km. A cearense, moradora do bairro da Vila Mariana, foi uma das vencedoras do concurso cultural “atleta de shopping” do Esportividade.

“Amei a experiência; quero repeti-la”, disse. “Não vim com guia. Corro de maneira avulsa. Conheci um amigo aqui e pedi a ele que me levasse ao guarda-volume. A moça de lá me disse que um grupo do pessoal do Peama [Programa de Esportes e Atividades Motoras Adaptadas, de Jundiaí] veio e tinha guia. Esse amigo me levou ao local de largada e conversei com eles.”

“Em menos de um minuto havia uma menina que se disponibilizou para correr comigo, a Mônica. Corremos os 4 km em 29min35s [o que lhe rendeu a 128ª posição entre 299 mulheres]. Se não fosse o Peama eu não teria conseguido participar da prova.”

Zezé, acostumada a provas de pista, agora encara desafios diferentes. “Antes da corrida, um amigo me disse que a rampa seria difícil e que eu estranharia o ar-condicionado no Parque da Mônica. Dentro do shopping foi emocionante ouvir o passo das pessoas, o cheiro do pessoal começando a fazer a comida, o incentivo da galera”, afirmou ela, cuja última Paraolimpíada foi Pequim-08.

“Corrida de shopping é um negócio muito massa. E a guia combinou um código comigo: toda vez que houver uma ‘tartaruga’ [‘olho de gato’] no chão, direi ‘salta’ para você. Como ela é guia profissional, já estava acostumada. A prova foi dez. Quero outro shopping para correr.”

Maria, cuja deficiência é de nascença, deixou de competir internacionalmente após o nascimento de sua filha, hoje com seis anos de idade. É bancária do HSBC atualmente e estuda jornalismo na Unip – último ano.

Graças à história dela com a filha ganhou inscrição para a 7ª SP Run no concurso cultural do Esportividade. Leia o que ela escreveu diante do pedido “Conte sobre o dia em que você mais teve de usar suas habilidades de atleta dentro de um shopping (uma história real)”:

Maria José Ferreira Alves, a Zezé, em casa:  brinquedos da filha ao fundo

Maria José Ferreira Alves, a Zezé, em casa: brinquedos da filha ao fundo (acervo pessoal)

Estava na praça de alimentação do shopping Santa Cruz com minha mãe, minha filha pequena e meu pai. Na época, minha filha tinha três anos, e a deixamos com meu pai e fomos pedir comida. Foi quando, na fila, uma pessoa que estava atrás disse: ‘Nossa! Uma menininha está correndo sozinha para a escada rolante’.

Sabe, naquela hora eu senti que era minha pequena Sofia. Saí como louca da fila correndo para chegar à escada rolante. Pense na cena de eu correndo por entre as mesas e pessoas. Confesso que não pensei em mais nada: só em chegar à escada. Consegui chegar a tempo, antes de ela pôr o pezinho na escada. Ah, esqueci de dizer que sou uma pessoa com deficiência visual.

(Acesse soudoesporte.com.br/atleta/maria-jose-ferreira-alves, que é um site de financiamento coletivo para atletas, para patrocinar Maria José, a Zezé.)

Leia também:
‘Histórias de atletas de shopping’: veja o resultado do concurso cultural

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